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Falando sobre etiqueta à mesa

 Cultura & Comportamento

 

Falar de etiqueta à mesa é trazer um código social que indica o que seria a melhor forma de se portar durante uma refeição. É um tema que enche os olhos, seja pelas regras, seja pelo contexto em que elas se inserem e na refeição sendo um momento de socialização. Ao longo deste post, vamos falar sobre todas essas perspectivas.

 

 

Mesa muito bonita
[Bela e elegante mesa posta. Imagem: Zak Chapman / Unsplash | Reprodução]


 

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COMO SURGIRAM AS REGRAS DE ETIQUETA?

 

Apesar de que pareçam arbitrárias, as regras de etiqueta têm uma razão, e variam conforme o país, guardando origens históricas. Há países que sugerem posições diferentes das mãos, corte da salada, sentar à mesa ou no chão, cortar ou não o pão com a faca, pedir ou não água, dentre outras. Aquelas bebidas que os repórteres bebem quando vão às aldeias de povos originários fazem parte desses rituais de etiqueta, adaptados ao contexto local.

 

Uma origem do termo seria etiquetar como sinônimo de identificar visitantes conforme sobrenome e título de nobreza. Existe outra corrente que afirma ser outra origem, do francês

 “étiquette”, vindo do grego “ethos” (“ética”), o que seria um sinônimo de respeito e reflexão sobre os pequenos atos cotidianos. 

 

Desde os tempos dos faraós egípcios até o Império Romano (encerrado além de 400 d.C.), a etiqueta veio para diferenciar pessoas pobres e escravizadas de pessoas com poder econômico. Esse conceito ganhou força com a corte francesa de Luís XIV. Posteriormente, no séc. XV, durante o Renascimento, as regras seriam fortalecidas e separariam a verdadeira nobreza da burguesia ascendente.

 

Ainda falando do séc. XV, nele se tem uma possível origem do guardanapo. Acredita-se que foi criado por Leonardo da Vinci, na época em que era serviçal de cozinha, seguindo a mesma ideia até os dias atuais.  

 

Falando de talheres, mais especificamente da colher, é algo bastante antigo. Surgiu há mais de vinte mil anos.

 

Bem mais recente, o garfo foi introduzindo na França em 1540 por Catarina de Médici. Foi um sucesso por diferenciar ricos de pobres, que comiam com a mão. Perceba que hoje, mesmo em casas humildes, podem ser encontrados garfos.

 

Quanto às facas, sua posição é uniforme à direita. Essa regra foi uma forma de obrigar todos a serem destros. Até o séc XIX, canhotos eram malvistos e houve momentos históricos onde foram até punidos por bruxaria. 

 

Agora falando dos pratos, a origem histórica dos múltiplos pratos é russa. Até o séc. XIX, a comida era servida de uma só vez. A intenção era de demonstrar fartura, mas a comida esfriava e isso é problema em locais com invernos rigorosos.

 

Em 1810, um príncipe russo apresentou à corte francesa o serviço com um prato por vez. A ideia se fortaleceu pelo grande cozinheiro Carême, em 1833, que serviu imperadores e até Napoleão.  

 

Já a ideia da fileira de copos é do início do séc. XX. Ela veio de uma família de vidreiros, a Riedel, onde cada taça valoriza certo tipo de líquido.

 

AS REGRAS

 

Existem várias regras de etiqueta. Vamos abordar algumas delas aqui, considerando principalmente o contexto brasileiro.

 

Para o guardanapo, a função é usá-lo no colo para não sujar a roupa. Isso parte da postura a ser adotada quando se senta, que é de coluna reta e com pequeno afastamento da mesa. Também serve para limpar a boca, não o tempo todo e nem com força, mas antes de usar algum copo, pois a boca suja pode deixar marcas.

 

Ao levantar, o guardanapo deve ser devolvido. A posição correta é ao lado esquerdo dos garfos. Falando em garfos, uma mesa posta e formal terá vários garfos e facas, considerando várias fases (entrada, prato principal, etc.). A ordem é começar pelos mais externos até os mais de dentro, quanto ao prato.

 

Garfos à esquerda, facas à direita, considerando seu uso com a exata mão em que estão dispostas. Uma colher de sopa ao lado das facas.

 

A maior faca, com serra, é usada para o prato principal, que geralmente tem carne ou é algum assado. A faca pequena serve para cortar carne de peixe.

 

Ainda no uso de garfos e facas, existem dois estilos: americano e europeu. O estilo americano admite a troca das mãos dos talheres para cortar com a faca, fora isso usa-se a nas mãos convencionadas, com faca descansando sobre o prato. Não pode usar a faca para apoiar a comida contra o garfo. O estilo europeu já permite apoio breve da faca para direcionar ao garfo, mas não trocando os talheres de mão.

 

Quando a comida for servida, o correto é aguardar que todos estejam servidos para começar. Afobação pode atrapalhar a experiência de todos enquanto comem. Falar alto e gesticular muito também incomodam, pois a pessoa pode bater nos outros ou quebrar algo à mesa.

 

A posição das mãos e braços também é importante. Alguns países têm a cultura das mãos sobre a mesa. No Brasil, a etiqueta indica ser adequado não apoiar cotovelos e só usar as mãos acima da mesa enquanto come. Para não ser desconfortável, a pessoa pode regular seu afastamento com a cadeira.

 

Ao terminar, nada de empurrar pratos, aliás, nada de empurrar coisas à mesa em momento algum, apenas erguer. Mexer no nariz, palitar dentes, etc. também não estão valendo. Os talheres devem ser postos no prato, com a serra da faca voltada para dentro e o garfo virado para baixo. 

 

Se a refeição é um café-da-manhã ou café-da-tarde, algumas regras são muito parecidas, e existem algumas particularidades. A Debrett’s, que é a maior autoridade britânica em etiqueta desde 1769, explica um pouco da relação entre etiqueta e o manuseio do pão, em regras que também valem no Brasil.

 

Nessas regras, os pãezinhos devem ser partidos com as mãos. Para passar doces (marmelada, goiabada, doce de fruta, doce de leite...), salgados (patês, molhos, ...) ou gorduras (requeijão, manteiga, margarina, cream cheese, banha...), seria sugerido depositar um pouco disso no canto do prato, usando a faca ou passadeira. Só depois é que você transfere para seu próprio pão.

 

PENSANDO NESSAS REGRAS

 

Várias análises podem ser tecidas a partir de quaisquer regras de etiqueta. Esse tema já foi discutido por diversos autores, como Margaret Visser. No livro "The Rituals of Dinner", com resenha do The Guardian, ressalta-se que a autora pode desapontar quem queira que se defenda uma forma padrão de se portar. Por outro lado, nada de relativizar momento e ocasião: sempre vai existir um ritual à mesa e ele vai ter significados. Tendências que surgem, como comida de rua ou feita com as mãos, porções muito menores ou posts nas redes, são paralelas ao que cai em desuso, como deixar sal na ponta do prato, pedir confirmação com bilhetes e ligação por telefone ou fazer rituais de caça antes de comer (se alguém acha isso bárbaro, a própria resenha do Guardian indica que a autora lembra que se mata muito mais animais hoje).

 

O Emily Post Institute, que é um negócio familiar já na quinta geração, com o primeiro livro datado de 1922 e promotor de cursos/podcasts sobre o tema, fala que além das regras, é preciso praticar valores que norteiem as situações de contato com outras pessoas ou mesmo o atendimento ao público em serviços de alimentação. O Emily Post lista, dentre esses valores, o autocuidado e o respeito e consideração com as demais pessoas.

 

Além de existirem regras e serem cultivados valores no trato ao outro, é preciso pensar em mais nuances quando se fala em etiqueta. Sim, desde o princípio, ela foi desenvolvida pensando em separar pessoas. Vários pratos, copos, talheres, refeições servidas em partes... tudo isso se torna impraticável numa vida cotidiana onde você não disponha de uma penca de empregados. Algumas pessoas têm certa dificuldade motora ou outros problemas que dificultam seguir todos os protocolos.

 

Outro aspecto é a funcionalidade. Nesse ponto, existem regras positivas e negativas, para o uso em quaisquer situações e ambientes. Das positivas:

 

• Não se apoiar sobre a mesa evita ficar com farelos na roupa ou puxar e entortar as toalhas. Também evita derrubar coisas da mesa e ficar numa triste postura arqueada.

• Não arrastar objetos também evita derrubar algo.

• Manter os talheres acima do prato não cria alavancas que possam colocá-los longe.

• Existir a posição certa dos objetos evita bagunça no uso de copos e até a dúvida de quem eles são. Quem num jantar de domingo não ouviu um tio ou uma tia perguntando de quem é o copo?!

• Independentemente do lugar, você sabe como agir.

• A mesa fica mais vistosa e bonita, podendo agradar anfitriões e convidados.

• Embrulhar saladas com o garfo é uma forma mais limpa de se servir.

• Cortar apenas o pedaço de carne ou torta que vai comer mantém o alimento mais bonito e conserva sua temperatura.

• Servir-se menos evita comer demais ou fazer sujeira. Permite enxergar melhor a comida.

• Não se apoiar na mesa e alongar-se reduz a chance de uma pessoa bater na outra, e permite que mais pessoas ocupem a mesa.

 

Já as negativas:

 

• Alguns movimentos podem ser difíceis de fazer, como enrolar massa num garfo.

• Usar somente garfo ou quase só ele no corte gera movimentos estranhos no manuseio, arrastados.

• Depositar doces ou gorduras num pires e passar pedaço a pedaço num pão, além de gerar pedaços feios e farelos, gera muita sujeira e resíduos, algo nada prático e desnecessário. O resultado estético é horroroso. 

• O fato de se servir de doce a cada mordida de pão também é enfadonho e repetitivo. Numa casa simples, isso vira alguém se servindo cinco vezes num mesmo pote de doce a cada fatia de pão de forma, sem deixar os outros usarem.

• Você começa a reparar nos modos de outras pessoas e esquece do prazer de comer.

• A etiqueta não manda comer tudo que se serve, ou seja, favorece o desperdício, ao invés do consumo consciente. Trocar diversos pratos também gera louças e objetos a lavar em excesso.

• Nem todas as pessoas cuidam da ordem de objetos. Do prato à mesa, passando pelos pertences do salão de festas do condomínio, até os halteres e anilhas da academia, falta a disciplina necessária para que uma mesa posta se mantenha, caso contrário, cada prato terá um aspecto e tudo deixa de fazer sentido e fica horroroso.

 

Não é impossível, mesmo nas casas mais humildes, manter a ordem e a postura ao comer, desde que as pessoas desejem isso e cuidem. Por outro lado, o significado cultural e as mudanças das regras com o passar dos anos demonstram que a etiqueta pode ser segregadora. Nesse caso, devem valer aqueles princípios que norteiam o que a etiqueta não cobre, falados pela Emily Post.

 

MAIS DICAS DE ETIQUETA

 

Além dos temas que falamos, outras dicas e detalhes de como a etiqueta é tratada no exterior estão neste post 👇🏻:

 

E AINDA MAIS PARA VOCÊ:

👉 Praticando etiqueta à mesa

 

 

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