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O Esteio do Futuro

 Literatura

 

E se o futuro trouxesse surpresas ao povo gaúcho? Descubra nesse conto que participou do concurso Contos 2125, que provocava o debate do futuro a partir de narrativas curiosas e distópicas:

 

O futuro e o passado se conectam aqui
[Um dos símbolos do RS, os Sete Povos das Missões. Imagem: Estado do Rio Grande do Sul | Reprodução]


 

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O ESTEIO DO FUTURO

 

"Em meio ao “Maçanico”, Gabriel nem percebia que esse era seu último rodeio. Estava no palco do Rodeio da Vacaria, onde seu CTG seria o grande campeão.

Ao final daquele ano, fez o vestibular da UFRGS, para o curso de Engenharia de Produção. Com a aprovação, mudou-se para a capital dos gaúchos. A rotina da faculdade costuma ser muito desafiadora, então Gabriel esteve em contato com as tradições, mas não mais em sua rotina de provas artísticas. Ouvia músicas tradicionalistas, e nos primeiros dois anos, foi ao Parque Harmonia para conferir os festejos farroupilhas.

Já no terceiro ano de faculdade, surgiu uma chance de estágio numa empresa multinacional, com sede europeia. Todos os alunos do curso falavam dessa empresa com olhos brilhando, e ele fora o escolhido!

2099 guardava mais uma surpresa: em meio à rotina no campus, conheceu Ana Laura – a Laurinha – acadêmica de Psicologia. Ambos haviam começado a faculdade no mesmo ano, mas como nasceram em cidades diferentes e tinham rotinas distintas, não se cruzaram antes. Certo que não era o momento, pois o Patrão Velho sempre escolhe a melhor hora.

Suas vidas nunca mais seriam separadas. Em meio ao último semestre de faculdade dos dois, as alianças viriam a simbolizar uma união que já existia dentro de seus corações.

Era um momento marcante: a humanidade estava nos primeiros anos do novo século. Várias tradições mantinham a identidade do gaúcho, mas o clima era outro, a tecnologia mudava a forma de viver e as noções de tempo e espaço pareciam ainda mais fluidas. As novas sementes estavam na Terra, mas cresciam em condições muito mais adversas.

A empresa em que Gabriel trabalhava estava com uma oportunidade incrível, mas que envolvia a mudança para Portugal. Depois de ponderar cada detalhe com Laurinha, pensaram em seguir adiante e passar alguns anos fora, fazendo um pé-de-meia. Eles sabiam que em algum momento, mais adiante, viriam com seus peçuelos de volta ao Rio Grande do Sul. Apesar do sentimento, toda pessoa que saiu de casa e foi para longe sabe que, ao voltar, nem você, nem aquele lugar serão os mesmos.

A rotina na empresa era intensa e exigia dedicação máxima. Todas as vantagens tinham que se traduzir em resultados fortes, e isso fazia com que qualquer ideia de descanso mais longo ou mesmo uma viagem internacional não fossem possíveis.

Enquanto isso, o Rio Grande do Sul sofreu com uma nova e intensa tragédia climática, como a que havia vivido no século passado. Chuvas e vendavais terríveis devastaram parte das cidades. Muitas pessoas foram embora, não por desejo ou oportunidades, mas forçadas pelo desconsolo da perda.

Gabriel e Laurinha ficaram alheios a parte do que havia acontecido. Um novo governo tomou o poder no país por um golpe de estado. Dentre as medidas adotadas, instituiu novos governantes estaduais, reprimiu fortemente movimentos contrários e a atuação da imprensa.

Em meio a um ambiente devastado e uma condição política adversa, ainda havia a repressão a quaisquer tipos de manifestações culturais. Nisso, os CTGs acabaram, assim como os rodeios e os acampamentos. Documentos e livros foram eliminados, e foi realizado o bloqueio e posterior remoção de quaisquer sites e recursos virtuais que fossem destinados à disseminação da cultura gaúcha.

Quando esse governo foi deposto, o estrago havia sido feito. A repressão à cultura gaúcha foi marcada pela saída dos integrantes mais velhos da organização dos movimentos culturais, enquanto que as parcelas mais jovens, novamente alinhadas ao mundo globalizado e suas “trends” nas redes, não mais eram sementes da tradição. Tudo estava desmobilizado e a memória praticamente apagada.

Nisso se passaram quinze anos. Parecia mais de um século.

Laurinha e Gabriel estavam de volta ao Rio Grande do Sul. Talvez para explicar seus sentimentos, precisemos voltar um século e citarmos os versos de Miro Saldanha:

 

“Ausente, fico sem jeito,

Me sinto feito pela metade!”

 

Ao mesmo tempo, percebiam que seu lugar não era mais o mesmo, não só pelo tempo, pelos costumes ou pelas pessoas, mas porque algo mais profundo havia acontecido. Também ao longo dos séculos, Arabi Rodrigues já havia escrito:

 

“Os que vivem do poder

São mestres da outra ponta

Nem ao menos se dão conta

Que o importante é o saber.”

 

Era nesse novo lugar que eles viveriam em família. Já não seriam mais um casal, mas três. Laurinha estava grávida.

Bento nasceu no outono do ano de 2115, dentro de um lar amoroso. Laurinha sempre foi a prenda que fez o rancho de Gabriel ser um lugar muito feliz. Agora, em meio às folhas que caíam, Bento era a esperança que vingava e crescia, brindando o amor do casal. E como cresceu!

Atento, quando criança Bento escutava seu pai e sua mãe falarem histórias da infância e adolescência, as tradições que eles viveram e que foram contadas pelos avós e bisavós. Como eles levaram alguns livros e memórias em arquivos digitais para Portugal, parte do que eles contavam se tornava vivo para o filho. Outra parcela se tornava difícil de entender, pois por mais que fosse o Rio Grande do Sul, o lugar e os costumes daquele presente eram muito diferentes. Isso fazia Bento perguntar demais sobre tudo, ter uma curiosidade gigantesca.

O pé-de-meia de Gabriel e Laurinha estava feito, mas isso não significava que eles haviam encerrado suas carreiras. Em meio à criação do filho, no ano de 2117, Gabriel foi trabalhar numa nova empresa que havia surgido em Porto Alegre. Tratava-se de uma startup que criava produtos de tecnologia que desafiavam a Física.

Um desses produtos estava sendo testado a-sete-chaves. Já havia sido criado o metaverso. Também já existiam algoritmos de inteligência artificial (IA) que permitiam que uma pessoa fosse inserida num contexto completamente diferente, como se estivesse vivendo por lá. Outra possibilidade não mais remota era de pisar em Marte. Mesmo com tudo isso criado, a barreira do tempo, e em alguns casos do espaço, ainda não havia sido quebrada. Seja por IA ou por metaverso, você não está verdadeiramente onde a tecnologia lhe coloca.

Esse produto era uma viagem no tempo. Ele permitiria a ida ao passado, mas por um tempo predeterminado, num local marcante (exatamente onde era desejado voltar), e sem a possibilidade de interferir nos fatos ou falar com pessoas, pois isso afetaria o futuro de maneira imprevisível. A ida ocorreria com o viajante sendo “invisível” aos antepassados, e a volta era automática ao local onde foi aberto o “portal”.

A viagem no tempo passou a ser testada em segredo dentro da startup. Depois de algumas perguntas do filho, Gabriel se sentiu seduzido a fazer o teste, mesmo diante de possíveis riscos. No dia seguinte, retirou escondido os quatro dispositivos para abertura do portal – um para cada vértice de um retângulo, formando a porta dourada.

Os primeiros testes, pela facilidade, foram realizados em Porto Alegre. Gabriel mostrou o Acampamento Farroupilha ao filho, e depois a Biblioteca Érico Veríssimo, dentro da Casa de Cultura Mário Quintana. Era incrível poder ver tudo aquilo de novo, ainda mais com Bento.

Mais um mês e Laurinha estava de férias. A abertura do portal seria feita mais longe, numa viagem em família. Nos Campos de Cima da Serra, os três foram viver (e reviver) o que era o rodeio de Vacaria. Bento viu as danças que seu pai tanto falava, do Maçanico ao Pezinho. Naquela região, também viram o portal trazer de novo a bisavó de Bento em frente ao fogão à lenha, enquanto seu bisavô tocava gaita, num final de tarde de sábado. No litoral, foi a vez de reencontrar lembranças na casa de praia que os pais de Laurinha tinham em Tramandaí.

Não era apenas uma volta ao passado: eram sentimentos e pessoas queridas. Também rebrotava a chama da tradição, aquele mesmo sentimento que pulsava firme durante a vitória naquele último rodeio antes da graduação. Só que havia um porém: não bastava que isso acontecesse apenas com Gabriel, Bento ou Laurinha. Tudo isso só faria sentido se fosse coletivo, vibrando em mais corações.

Chegando ao ano de 2125, logo ao retorno do trabalho, Gabriel foi indagado por seu chefe sobre como haviam sido as viagens – e não eram as viagens convencionais que estavam em pauta. Por mais que pensasse que havia levado o dispositivo com o portal e que ninguém havia percebido, tudo isso fazia parte dos testes e era propositalmente pensado pelos superiores, que colocaram os funcionários como “cobaias” antes de se aventurarem eles próprios.

Novas viagens poderiam ser feitas, sem problemas. Os chefes na startup pediram, apenas, um registro de todas as sensações físicas antes e após, todos os efeitos e detalhes que pudessem ajudar. Em caso de demissão da empresa, avisaram-no que seu dispositivo seria automaticamente bloqueado.

Se os testes estavam aprovados, não havia mais motivos para fazê-los escondido. Nisso voltou o pensamento sobre cultura e coletivo. O único limite era fazer tudo com amigos confiáveis, pois ainda eram testes sigilosos.

De um círculo de amigos mais próximos, Gabriel fez mais viagens ao passado e os trouxe para momentos que os fizeram vivenciar a cultura e a história do Rio Grande do Sul.

Nisso aconteceram mudanças dentro da startup. O criador dos dispositivos que abriam os portais acabou falecendo e outros profissionais envolvidos não conseguiram dar continuidade ao projeto, pois esse criador era muito centralizador. Com a falta de registros suficientes, tempo hábil e recursos para seguir com o projeto, a empresa encerrou as pesquisas e colocou foco em outros produtos. Pouco a pouco, cada dispositivo que abria um portal foi deixando de funcionar, sem possibilidade de conserto. Caso uma viagem no tempo fosse feita e o dispositivo estragasse durante o período em que o viajante estivesse no passado, não se sabia se o retorno seria possível, ou se ocorreriam sequelas.

Morria a tecnologia, mas renascia o futuro. Todas as viagens no tempo trouxeram Gabriel e seus amigos à chama da tradição, que renasceu como a chama crioula. Um novo acampamento em Porto Alegre e depois no interior do estado foram promovidos.

Se aquele período da história, que não poderia ser apagado, fez apagar os símbolos que uniam e formavam a identidade do gaúcho, a reconexão estava refeita e a memória voltava. As tradições voltavam a ser presente e o povo gaúcho olhava novamente para si, com orgulho, num novo tempo.

Mal sabia João Batista Machado que suas palavras se tornariam profecia:

 

“Quanto mais tempo se vive, mais tiramos conclusões

Se somarmos as ações, o trabalho, o pensar bem

Se todo dia um amém, e alguém nos calar profundo

Havendo muita paciência, fé e esperança e respeito

Veremos que desse jeito, dá pátria pra todo mundo”

 

Bento cresceu e fundou o primeiro CTG de uma nova era, o qual decidiu chamar de “Esteio do Futuro”. Seus pais escreveram livros, contando as memórias passadas e ajudando a reconectar nosso povo. O futuro era diferente, desafiador, mas ainda assim um gaúcho poderia vir ao nosso estado e novamente olhar para si e reconhecer sua identidade. Sua família foi a nova semente que fez tudo crescer e novamente florescer, por muitos e muitos futuros além."

 

VOLTANDO LÁ NA HISTÓRIA, NAS CARTAS

 

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