Ciência & Saúde
A pergunta que intitula nosso post não é tão óbvia quanto possa parecer. Não estamos falando de aparelhos quente e frio, mas do que acontece no uso do aparelho, impactos e avanços nos últimos anos. Vamos começar respondendo que, se for no aspecto bafafá entre os franceses sim, ele esquenta...
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[Quando o vídeo viralizou. Imagem: Mike van Schoonderwalt / Pexels | Reprodução] |
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AS ACALORADAS DISCUSSÕES NA FRANÇA
Não é apenas no Brasil que até um chinelo vira discussão entre esquerda e direita ou direita e esquerda. Na França, o ar-condicionado virou tema de disputa política em meio aos impactos nunca antes vistos no país, com dias muito mais quentes.
Conforme matéria do jornal O Globo, de agosto de 2025, a líder de direita Marine Le Pen prometeu que mais desses aparelhos seriam vistos na França, por incentivo do governo, caso a direita chegasse ao poder. Do lado oposto, pesa-se o custo econômico, energético e impactos ambientais. Para Marine Tondelier e outros líderes de esquerda, enverdecimento de cidades e edifícios mais eficientes seriam o caminho.
No mês anterior, em julho de 2025, a onda de calor seria o começo das discussões, e até um teste político. Foram temperaturas de até 39°C e incêndios florestais.
Num artigo de opinião do jornal conservador "Le Figaro", o autor disse que “fazer nossos cidadãos suarem limita o aprendizado, reduz as horas de trabalho e sobrecarrega os hospitais”. São alguns perigos do desconforto térmico, os quais sempre fazem vítimas nos meses de verão e tendem a se intensificar.
Também na imprensa, o diário Libération contrapôs essa ideia. Nele, falou-se que o ar-condicionado seria “uma aberração ambiental que deve ser superada” por lançar ar quente nas ruas e consumir energia preciosa.
Na TV, um programa chegou a questionar se ar-condicionado é um artigo de extrema direita. Fato é que existem vários argumentos para ambos os lados.
O ar-condicionado é um aparelho mais caro e atende o que não é compensado com as demais medidas de eficiência. Ele pode evitar medidas mais drásticas como fechamento de escolas e cancelamento de aulas.
Só que ele não resolve tudo e nem pode ser medida isolada. Mesmo que os modelos sejam mais eficientes, parte disso depende de uso consciente, ajuste de temperatura (nem tão fria) e uso moderado, não contínuo no ano. O interior do imóvel resfria, mas o exterior se aquece.
Na Europa, não foi só a França que sentiu efeitos do calor acima de 29°C. Em Madri, foram sessenta e três dias de calor com essa temperatura nos últimos anos, ante vinte e nove lá nos anos 1980. Já a marca de 32°C, raramente ultrapassada, esteve em quarenta dias ou mais dos verões dos últimos cinco anos.
No campo político, a discussão é sempre acalorada. Há quem saiba separar as coisas e veja negócios de um lado, visão de futuro de outro. Christian Meyer, que tem uma empresa francesa de instalação de ar-condicionado, chegou a declarar a um jornal francês que achava que casas com bom isolamento térmico eram até melhores do que o uso do ar-condicionado. O governo francês segue a mesma linha, indicando que o ar seria uma solução quando medidas de eficiência tiverem sido esgotadas.
QUAIS OS IMPACTOS DE UM AR-CONDICIONADO? OU MELHOR, DE MAIS DE UM...
Já falamos um pouco, mas podemos pensar a fundo sobre esses efeitos. Um dos efeitos críticos é consumir muita energia. Em alguns países, a energia tem como fonte a queima de carvão ou gás.
Caso fossem fontes renováveis, ainda assim seria um custo sobre um aparelho que nem sempre é essencial, ou vira importante porque o ser humano passa a não tolerar nenhuma temperatura amena, passando ao uso contínuo. Isso acontece porque, diferente de água, roupas, sombra ou ventilador, o ar-condicionado pode levar a um equilíbrio de temperatura que nada mais alcança, na visão de quem está dentro do cômodo e sem outras pessoas.
Pelo consumo energético, emite gases do efeito-estufa. As instalações elétricas residenciais exigem circuitos a mais a cada tomada desses aparelhos. Cabos mais parrudos precisam alimentar esses circuitos.
Nas fachadas, alguns proprietários instalam aparelhos em pontos aleatórios e até onde não é permitido, seja pela estrutura, seja pela harmonia estética. Drenos jogam água onde não deveriam, na falta de previsões adequadas de instalações, favorecendo infiltrações e corrosões.
Estima-se que com o crescimento do número de aparelhos de ar-condicionado, mais de um bilhão de toneladas de dióxido de carbono a mais serão emitidas. Seria o mesmo que acrescentar mais uma África ao planeta. É uma tendência em locais como China, Índia e Indonésia, ou onde houver um avanço de renda e crescimento da renda e qualidade de vida.
Esse dióxido de carbono pode aquecer o planeta ainda mais, em escala global. Também existe o efeito de microclima, onde o local com ar-condicionado pode parecer esfriar, e isso acontece no cômodo interno, mas libera calor nas ruas. De acordo com o jornal O Globo, um estudo de 2014 mediu um aumento de 1°C no centro de uma cidade, à noite, pelo efeito dos aparelhos.
O problema do ar-condicionado é de ser um dispositivo que resolve um problema que ele mesmo ajuda a criar. A partir disso, vira um círculo vicioso.
TECNOLOGIAS E AVANÇOS
Pela tendência atual, estima-se que o consumo de energia elétrica chegue a ponto de, em 2050, totalizar a capacidade elétrica dos Estados Unidos, Europa e Japão, juntos. É por isso que pesquisas são motivadas quanto a sistemas mais eficientes.
Em Stanford, por exemplo, criou-se um sistema com materiais de ponta baseado na nanofotônica, onde eles são altamente reflexivos, dissipando calor mesmo sob luz direta. A energia térmica infravermelha resultante é refletida. O comprimento de onda é tal que é dissipada no espaço, não sendo retida no planeta.
A partir desses materiais, água circulante em tubos abaixo de painéis pode ser resfriada alguns graus abaixo da temperatura ambiente. Com isso, pode resfriar um prédio, sem demandar eletricidade.
Essa tecnologia de resfriamento foi chamada de SkyCool Systems, cuja empresa foi registrada com esse nome. Os pesquisadores tentam colocar a ideia no mercado.
Já Danny Parker, do centro de energia solar da University of Central Florida, pesquisa com colegas algumas ideias de refrigeração mais eficaz. Em 2016, eles uniram dispositivos refrigerados com vapor d'água a aparelhos de ar-condicionado convencionais, o que melhorou a eficiência de 30 a 50 % quanto ao consumo energético.
A Samsung criou o "wind free". Como o nome diz, chegando à temperatura desejada, o ar-condicionado repõe lentamente o ar frio, sem precisar gastar com ventilador a alto consumo e operação contínua, com eficiência maior do que aparelhos convencionais em 32 %.
Os modelos inverter também partem da ideia de não haver mudanças bruscas. Eles seguem operando em baixa potência ao chegar à temperatura, o que traz economias no longo prazo.
AMENIZAR AUMENTANDO UM PROBLEMA QUE JÁ CRIAMOS
As tecnologias amenizam, mas é importante pensar que ar-condicionado não deve ser regra, mesmo que eficiente ou por fontes renováveis. Aquele princípio de se-não-comprar-o-desconto-é-maior deve valer aqui: só para dias de calor ou frio muito intensos.
O problema da temperatura, infelizmente, não tende a desaparecer. No Brasil, mesmo onde faz um pouco mais de frio, não ocorre nada perto da Europa, onde os esforços sempre foram mais para aquecer do que para refrigerar. Por lá, discutir ar-condicionado nem era uma realidade, hoje é consequência das mudanças climáticas. No passado, inclusive, europeus ridicularizavam o ar-condicionado como luxo estadunidense.
Hoje, conforme o país europeu:
• 50 % das residências italianas têm ar-condicionado.
• 40 % das espanholas.
• 20 a 25 % das francesas.
Por lá e em outros países, os aparelhos tendem a ser mais implementados. A arquitetura é mais restritiva nos países europeus, o que dificulta, mas não impediu totalmente o crescimento do número de aparelhos e de usuários.
Há fatores culturais também. No Brasil, Tailândia ou Indonésia, basta melhorar de condição econômica que surge um ar-condicionado em casa. Quanto mais calor, mais aparelhos, e isso se torna círculo vicioso.
Em alguns países, por mais que haja aparelhos mais eficientes, mesmo que de custo aquisitivo mais caro, eles são menos vendidos. O custo da energia ser competitivo, como na China, desfavorece a compra dos aparelhos de menor impacto ambiental.
A energia solar tem o ponto positivo de gerar picos de produção quando o ar-condicionado exige mais, sendo legal associar os dois elementos numa residência. Tecnologias como brises, isolamento térmico, persianas ou venezianas, resfriamento passivo, telhado verde, dentre outras, devem fazer parte do pacote de melhorias térmicas, e não apenas o ar-condicionado.
EFICIÊNCIA ENERGÉTICA EM EDIFICAÇÕES: COMO ANDA NO BRASIL?
Esse tema é discutido no Brasil e envolve pesquisas no meio acadêmico que já trouxeram várias respostas importantes, como os benchmarks energéticos. Já existem, assim como no exterior, certificações de sustentabilidade como o selo Caixa Casa Azul e a etiquetagem de eficiência energética de edificações (de maneira similar àquelas dos aparelhos elétricos ou de gabaritos de poltrona de avião). Pesquisa-se fortemente as melhorias em todos os padrões de projeto, inclusive na habitação de interesse social.
Iniciativas similares também ocorrem na Europa. Centros de pesquisa e universidades pelo mundo contribuem ao tema. No Brasil, o Laboratório de Eficiência Energética em Edificações (LabEEE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) é referência.
Os aspectos de eficiência energética também fazem parte da norma de desempenho, a ABNT NBR 15575-1:2024. Esses parâmetros vêm avançando, trazendo aspectos muito importantes como ventilação cruzada, iluminamento e outros.
Para melhorar a eficiência energética das edificações, estão surgindo cursos e exames de proficiência destinados aos profissionais de Engenharia Civil e Arquitetura, para os chamados Profissionais Certificados. Eles poderão atuar mais profundamente nos ajustes em edificações visando a etiquetagem em categorias superiores de eficiência, no selo Procel Edifica.
Além de capacitar profissionais, melhorar edificações e não só se basear em ar-condicionado, é preciso conscientizar os consumidores da importância de edificações eficientes. Muitos acham que ar-condicionado basta para situações de muito calor, mesmo quando é possível melhorar posição solar ou outros detalhes de projeto ou entorno da edificação.
ALÉM DO AR CONDICIONADO: UMA CASA FAZ DIFERENÇA NO TODO?
Na verdade, cada casa influencia um todo, não só pelo uso do ar condicionado, mas por várias características de projeto, operação e manutenção. Na sugestão a seguir, entenda melhor como isso funciona 👇🏻:
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👉 A sua casa contribui com a vizinhança (II)
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