Cultura

 

As transformações que acontecem na sociedade podem, ao longo do tempo, se refletir em revisões na linguagem falada e escrita. A globalização econômica, por exemplo, faz com que muitos termos em inglês sejam adotados no cotidiano, ou virem aportuguesados equivalentes. Outro fenômeno, a expansão na luta de direitos de pessoas que se incluem em grupos LGBTQI... fez com que surgissem discussões sobre gênero dentro da língua portuguesa, mais especificamente o pensamento sobre elementos de linguagem neutra. Nesse tipo de linguagem, teríamos uma transformação dos termos, de modo a não precisar pensar para quem se está falando, e a mensagem ser captada por todas as pessoas.

 

A adoção de gênero neutro é algo que tem mais importância a algumas pessoas do que outras, principalmente aquelas que apoiam ou pertencem aos grupos mencionados. Por outro lado, como a convivência em sociedade exige que você saiba como tratar um cliente, um colega de trabalho ou qualquer pessoa com que precise se relacionar, é bom ficar atento a essa discussão, para saber como se portar. Nesse artigo, vamos lançar alguns aspectos sobre o assunto, não o esgotando. Venha e saiba mais!

 

 

Falando mais a fundo do que temos por trás das palavras
[Linguagens a fundo. Imagem: Gerd Altmann / Pixabay]


 

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OS GÊNEROS E ELEMENTOS NEUTROS EM OUTRAS LÍNGUAS

 

Quando se fala nas principais línguas do mundo, há aspectos que envolvem neutralidade e definição de gênero na estrutura pois, em algum momento, você precisa definir o sujeito da oração. No inglês, as formas verbais são muito parecidas, e os pronomes pessoais sempre acabam surgindo para definir de quem se fala. 

 

A terceira pessoa do singular se divide entre masculino (he), feminino (she) e coisas/objetos/animais (it). Já a terceira pessoa do plural é comum a todos (They), o que seria uma espécie de neutralidade.

 

No espanhol, existem artigos definidos na forma masculina, feminina, e um tipo de artigo chamado de neutro, mas que não possui finalidade de linguagem neutra. Dentre outras funções, o artigo "lo" transforma adjetivos em substantivos abstratos, como "lo falso", "lo bueno" e assim por diante. É interessante observar no espanhol, que os gêneros atribuídos às palavras podem ser diferentes, como la leche, cuja tradução exigiria correção de gênero para o leite.

 

COMO O ASPECTO DE GÊNERO É TRATADO NO PORTUGUÊS

 

Em português, assim como no espanhol, há formas verbais, pronomes, artigos e outros elementos que variam conforme gênero. Nos casos de fenômenos da natureza, ou grupos de pessoas, prevalecem as formas masculina singular e plural, respectivamente. Isso gera incômodos porque com cem mulheres e um homem, fala-se em todos (masculino/"neutro"), e mencionar todos e todas seria um pleonasmo.

 

A QUESTÃO NÃO É TÃO SIMPLES ASSIM...

 

Há ainda grupos de pessoas LGBTQI... que não se sentem confortáveis com nenhuma das designações. Por outro lado, mudanças na língua não são tão simples assim, a contar pelo nosso último acordo ortográfico, que mudou poucas palavras no total da língua, mas demorou tempo até se tornar oficial.

 

Não é impossível que haja mudanças no futuro, pois o português é uma língua viva e surgem novas palavras ao longo do tempo. O latim, por exemplo, já teve versões além dos dois gêneros, o que se perdeu nas línguas derivadas como o português.

 

Mudanças que tem sido colocadas em alguns textos em redes sociais, blogs ou até em níveis mais formais, têm buscado estabelecer o que seria essa mudança, incluindo a troca do "o" ou "a" por "x", "@" ou "e", como "todes", "alunxs" ou "vestibuland@s". Só que não basta mudar uma palavra, até porque há elementos que precisariam flexionar também, e não temos fonemas adequados (como se lê "todxs"?)

 

Nas redes sociais, circula um texto que aponta algumas peculiaridades sobre o gênero na nossa língua, o qual será reproduzido a seguir:

 

Autora: Vivian Cabrelli Mansano

 

“Vamos conversar com a tia. Não sou homofóbica, transfóbica, gordofóbica. Eu sou professora de português.

 

Eu estava explicando um conceito de português e fui chamada de desrespeitosa por isso (ué). Eu estava explicando por que não faz diferença nenhuma mudar a vogal temática de substantivos e adjetivos pra ser "neutre".

 

Em português, a vogal temática na maioria das vezes não define gênero. Gênero é definido pelo artigo que acompanha a palavra. Vou mostrar pra vocês:

 

O motorista. Termina em A e não é feminino. O poeta. Termina em A e não é feminino.

 

A ação, depressão, impressão, ficção. Todas as palavras que terminam em ção são femininas, embora terminem com O. Boa parte dos adjetivos da língua portuguesa podem ser tanto masculinos quanto femininos, independentemente da letra final: feliz, triste, alerta, inteligente, emocionante, livre, doente, especial, agradável, etc.

 

Terminar uma palavra com E não faz com que ela seja neutra. A alface. Termina em E e é feminino. O elefante. Termina em E e é masculino.

 

Como o gênero em português é determinado muito mais pelos artigos do que pelas vogais temáticas, se vocês querem uma língua neutra, precisam criar um artigo neutro, não encher um texto de X, @ e E. E mesmo que fosse o caso, o português não aceita gênero neutro. Vocês teriam que mudar um idioma inteiro pra combater o "preconceito".

 

Meu conselho é: ao invés de insistir tanto na coisa do gênero, entendam de uma vez por todas que gênero não existe, é uma coisa socialmente construída. O que existe é sexo.

 

Entendam, em segundo lugar, que gênero linguístico, gênero literário, gênero musical, são coisas totalmente diferentes de "gênero". Não faz absolutamente diferença nenhuma mudar gêneros de palavras. Isso não torna o mundo mais acolhedor.

 

E entendam em terceiro lugar que vocês podiam tirar o dedo da tela e parar de falar abobrinha, e se engajar em algo que realmente fizesse a diferença ao invés de ficar arrumando pano pra manga pra discutir coisas sem sentido.”

 

Circulando nas redes sociais.

 

 Existem esses e outros pontos indicados por linguistas para se contrapor à linguagem neutra, e mais discussões favoráveis. Nas opiniões contrárias à linguagem neutra, aponta-se que a linguagem reflete valores, e isso precisa mudar, havendo um ajuste natural, como pensar em "o carteiro" e "a faxineira", sendo que posso ter o oposto.

 

Em uma reportagem de TV, uma senhora disse que se fosse homem, seria jardineiro, mas ela poderia ser, mesmo sendo mulher, e a repórter lhe destacou isso: além da construção gramatical, havia um julgamento de valor que pode ser mudado ali. Em nomeações oficiais e documentos públicos, ainda existem engenheiras sendo nomeadas como engenheiros civis, e por aí vai...

 

 À parte do e, x ou @, há outros modos para aplicar linguagem neutra e ainda assim segundo a gramática corrente. Uma delas é perguntar como as pessoas preferem ser chamadas (pessoalmente ou de forma virtual, de acordo com o meio de comunicação). Há seleções em empresas e universidades que já adotam essa ideia.

 

Outra dica interessante é, ao invés de usar termos como senhor e senhora, tratar as pessoas por você, o que confere intimidade e segurança.

 

O cuidado serve para ser respeitoso, mas mudanças mais pesadas podem criar mais uma separação do que inclusão: se as pessoas não fazem concordância adequada com duas opções, imagine com três. Como nossa língua é rica, é preciso atentar se mudanças surgirão, ou mesmo repensar termos e expressões para abranger novas realidades.

FALANDO MAIS SOBRE LINGUAGEM

 

Como mencionado ao longo desse post, a linguagem representa uma construção social, refletindo o que se pensa no momento. Termos que refletem o período da escravidão estão presentes até os nossos dias, mesmo que se tenha perdido o real sentido, os quais você consegue conhecer no link da barra azul 👇🏻:

 

 

 

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👉 Termos de origem racista

 

 

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