História
Por muitos anos, a Rússia ou depois a URSS representou uma força antagônica aos EUA. Hoje, talvez a nação que mais represente isso seja a China, seja do ponto de vista econômico (como segunda maior economia mundial), seja político (por seu regime de governo).
Como foi que chegamos a esse status? Vamos relembrar esse caminho até os dias atuais.
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| [Moderna cidade chinesa. Imagem: Li Yang / Unsplash | Reprodução] |
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A REVOLUÇÃO CHINESA
A Revolução Chinesa é datada de 1949. Esse é o marco da transformação que fez a China ser comunista. Houve longos anos em que civis lutaram: de um lado, os comunistas de Mao Tsé-Tung, do outro, os nacionalistas de Chiang Kai-shek. Com a vitória do lado de Mao, foi fundada a República Popular da China, e as transformações começaram a ser implementadas pelo novo regime.
Ele prosperou porque fatores históricos anteriores abriram caminho. No começo do séc. XX, a China era governada por uma monarquia e era uma nação enfraquecida por conta da interferência estrangeira. Inglaterra, França e outras nações ocupavam territórios chineses, o que impulsionou o surgimento de movimentos nacionalistas.
Sun Yat-sen era um grande nome do nacionalismo. A Revolução de 1911 (Xinhai) findou a monarquia chinesa e começou a República num governo provisório. Apesar de haver a força na ruptura, o período seguinte ainda foi politicamente instável e vários movimentos de cunho separatista cresceram em parte da China.
Essa parte era, principalmente, o sul chinês, liderada pelos senhores-da-guerra, uma espécie de chefe militar de influência regional. Entre 1916 a 1927, o Partido Nacionalista/Kuomintang tratou de combater tais movimentos.
Em paralelo à corrida dos nacionalistas, os comunistas cresciam de outro lado, inspirando-se na Revolução de 1917, na Rússia. A classe operária se fortaleceu e criou, com Mao Tsé-tung e outros cinquenta e seis fundadores, o Partido Comunista Chinês, em 1921.
PARTIDO COMUNISTA + URSS + KUOMINTANG
Os partidos Comunista e Nacionalista estreitaram relações, sendo que o Kuomintang era o maior partido chinês. A URSS mediou essa ligação, aceita pelo Kuomintang, onde comunistas entraram nos seus quadros, mas dentro do comando de Sun Yat-sen.
Dentro dos acordos, a URSS virou parceira econômica do Kuomintang, fornecendo-lhe recursos (inclusive armas). Não era a ideia soviética principal ficar financiando partido "burguês", mas eles viam que a China ainda não tinha caminho para o socialismo.
PARTIDO COMUNISTA + URSS VERSUS KUOMINTANG
Os ventos mudaram. Em 1925, Sun Yat-sen falecera e Chiang Kai-shek assumiu o partido nacionalista. Chiang percebera que os comunistas cresciam muito nas grandes cidades chinesas e isso o incomodou, fazendo surgir uma forte repressão do Kuomintang.
Essa repressão envolveu até a mobilização de tropas. Para evitarem riscos maiores e o movimento ser dizimado, os comunistas foram se refugiar em cidades do interior. A fuga ficou conhecida como Longa Marcha. Ela aconteceu entre 1934 e 1935, quando os comunistas percorreram aproximadamente 10.000 km, saindo das regiões de Jiangxi e Fujian visando se estabelecerem em Yanan.
O conflito entre nacionalistas e comunistas arrefeceu em torno de 1930. O Japão se tornou uma grande ameaça geral e isso ia além dos grupos políticos. Os nipônicos tinham interesses imperialistas na China desde o final do séc. XIX, e ampliaram suas ingerências no território chinês durante aquela década.
Em 1931 aconteceu o Incidente Mudken: os japoneses oficialmente invadiram parte do território chinês. O território ocupado foi a Manchúria, onde os japoneses fundaram um estado conhecido como Manchukuo. A hostilidade japonesa intensificou-se, chegando ao ponto de o Japão declarar guerra contra a China em 1937.
A versão oficial é que nacionalistas e comunistas fizeram uma trégua, enquanto outros historiadores defendem que eles lutaram por debaixo dos panos. O esforço maior foi na Segunda Guerra Sino-Japonesa e só terminou em 1945, quando o Japão foi derrotado ao final da Segunda Guerra Mundial.
Os chineses saíram vitoriosos. Mao Tsé-tung (comunistas) e Chiang Kai-shek (nacionalistas) se reuniram para debater um governo conjunto. Kai-shek queria que os comunistas tivessem forças desarmadas, o que não foi aceito.
Os grupos protagonizaram novamente o conflito dentro da China, já em 1946. Os EUA apoiaram os nacionalistas, mas os comunistas haviam auxiliado os camponeses e garantiram acesso à terra a vários deles, tendo apoio dessa numerosa parcela da população. Os comunistas tinham mais de dez milhões de pessoas a seu favor, e dessas, um milhão de soldados devidamente armados.
Do interior para os grandes centros, entre 1946 a 1949, os nacionalistas foram sendo encurralados. Em janeiro desse último ano, as tropas comunistas conquistaram Pequim. Chiang Kai-shek, toda a cúpula do Kuomintang e a alta burguesa da China fugiram e se refugiaram na ilha de Formosa (atual Taiwan). Isso explica que, mesmo que Taiwan se considere independente, ainda é vista pelo governo central chinês como um reduto opositor.
Com o caminho livre, Mao Tsé-tung (também conhecido como Zedong) proclamou a República Popular da China em 1º de outubro de 1949 e, com ela, vieram as transformações que implementaram o comunismo na China.
DA POBREZA À POTÊNCIA MUNDIAL
Em 2026, a China chegou ao marco de setenta e sete anos de Revolução Comunista. Mais do que o regime de governo, houve uma transformação econômica, a ponto de a China se tornar a segunda maior economia do mundo, virando potência mundial já em quarenta anos.
Na chegada ao poder, Mao Tse-tung, o "Grande Timoneiro", assumiria uma China pobre e devastada pelos conflitos internos. O crescimento mais expressivo viria de ideias de seus sucessores, após sua morte, em 1976.
A mudança de curso começou em 1978. Tudo caminhou para Deng Xiaoping assumir o poder e ele mudou os rumos do que Mao Tsé-tung havia previsto originalmente.
A China sairia de ser um país pobre, com um Produto Interno Bruto (PIB) de quinze bilhões de dólares e uma população de oitocentas milhões de pessoas a passar de doze trilhões de dólares em PIB e passar de um bilhão, trezentos e oitenta milhões de habitantes, conforme dados da ONU. Claro que existe inflação ao longo dos anos, mas há crescimento real também.
Ainda falando do período de Mao Tsé-tung, houve o Grande Salto Adiante (1958 - 1962), que buscava transformar a economia agrária do país. O efeito foi uma escassez de alimentos que levou à morte de ao menos dez milhões de pessoas. Há fontes que estimam até quarenta e cinco milhões de pessoas, mas difícil saber porque a China dos últimos anos é um país fechado quanto à informação.
Em seguida houve a Revolução Cultural (1966 - 1976), uma campanha de Mao contra os partidários do capitalismo, que também levou a milhões de mortos e paralisou a economia nacional. Esse cenário foi o assumido por Deng Xiaoping, que antes de assumir o governo era secretário-geral do Partido Comunista da China.
Deng propôs as reformas pensando no chamado "socialismo com traços chineses", e rompeu com o status quo. Foram implementadas uma série de reformas econômicas, centradas na agricultura, num ambiente liberal para o setor privado, na modernização da indústria e na abertura da China para o comércio exterior.
Essa abertura ocorreu com certas regras específicas. Você pode ver um exemplo disso no post sobre a VW, nas sugestões de leitura.
Deng Xiaoping implementou as chamadas "quatro modernizações" e uma evolução da economia, que se tornou capitalista. Para Deng, não importava se o sistema econômico chinês fosse comunista ou capitalista, mas que funcionasse. Explicando essa ideia num discurso da conferência da Liga da Juventude Comunista da China, ficou famoso pela máxima de que "Não importa se o gato é preto ou branco desde que cace ratos".
O programa de Xiaoping foi ratificado em 18 de dezembro de 1978 por parte do comitê central do Partido Comunista da China, com a modernização econômica sendo a principal prioridade. As mudanças dos anos seguintes foram ambiciosas e sofreram resistência da ala mais conservadora do partido.
Dentre as mudanças, o setor agrícola abandonou gradualmente o sistema de economia rural planificada de Mao Tsé-tung, onde tipo, quantidade e preço das mercadorias eram definidos pelo Estado. Isso aumentou a produtividade e tirou regiões do país da pobreza, fomentando a migração de mão de obra para zonas urbanas. A produção agrícola passou a ser regida por oferta e demanda.
As cadeias do setor privado prosperaram e, pela primeira vez desde 1949, o país se abriu para investimentos estrangeiros. Visando modernizar e fazer crescer a economia, Xiaoping incentivou sua equipe a fazer benchmarking, entendendo as potências capitalistas já consolidadas.
Outra criação foram as zonas econômicas especiais, como a da cidade de Shenzhen. Tamanho o desenvolvimento, ela recebeu o apelido de vale-do-silício-chinês.
CAPITALISTA DE MERCADO, MAS AINDA ASSIM UM GOVERNO FECHADO
Em maio de 1997, uma reportagem de Jaime Spitzcovsky para a Folha de S. Paulo descrevia como funcionava a experiência capitalista de mercado e comunista de governo que a China havia adotado. Em fevereiro daquele mesmo ano, Deng Xiaoping falecera. Antes disso, em 1989 até 2002, fora sucedido por Jiang Zemin como dirigente máximo.
Dentro de um governo fechado, antidemocrático e sem a obrigação de prestar contas à população, a iniciativa privada até podia prosperar e isso aconteceu, mas tudo dependia muito de relações com funcionários de governo e até de corrupção. A média anual do crescimento chinês chegou a ser superior a 9 %.
No campo político, ativistas pró-democracia foram presos ou exilados. Empresários que se aventuram na China podem prosperar, mas nada de críticas ao governo (nem mesmo como as que são feitas no Brasil de hoje). A Giordano, uma rede de Hong Kong especializada na venda de roupas, em 1996 foi obrigada a fechar onze lojas em Xangai (leste), depois que seu fundador, Jimmy Lai, criticou Li Peng, primeiro-ministro chinês de 1987 até 1998 e falecido em 2019.
A punição foi um exemplo para os investidores estrangeiros. Jimmy Lai vendeu sua participação na Giordano, mas os novos donos enfrentaram dificuldades para recuperar espaço no mercado local.
No governo chinês, a ausência de legislação protegendo propriedade intelectual, falta de judiciário independente e a necessidade de fazer contato com pessoas do governo foram os problemas que surgiram com a reabertura. O governo chinês chegou a lançar uma campanha anticorrupção depois de constatar o problema.
Apesar de parecer sem conflito, em função da repressão do governo, o partido comunista teve adversários depois de sua consolidação. Em 1989, tropas enviadas pelo governo dispararam contra manifestantes pró-democracia em Pequim e em outras cidades. O episódio ficou conhecido como massacre da Praça da Paz Celestial (ou Tiananmen), com dados imprecisos de vinte e três estudantes mortos e trezentos soldados – podendo ser muito mais.
Em Wenzhou (leste), um grupo de empresários levantou doações em dinheiro para entregar aos soldados que "defenderam o país", apoiando o movimento rebelde. A repressão de 1989 representou o fim da aventura capitalista de Wan Runnan, um desses empresários. Soldados invadiram sua fábrica de computadores, uma das mais famosas da China, e ele teve de deixar o país. Seu desafio ao governo significou exílio nos Estados Unidos.
Apesar de ter modificado a economia, a política fechada e dados do governo não confiáveis, sendo estimados os dados econômicos por órgãos internacionais como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional.
A única eleição direta que se falou até hoje seria de dirigentes de vilarejos da zona rural, e nada mais. O crescimento econômico e tradições locais são bases que o Partido Comunista usa para seguir firme no poder.
MAIS CRESCIMENTO
Após um longo processo, a China pode entrar na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001. Isso também ajudou em seu crescimento econômico.
No ano de 2008, quando a crise da bolha imobiliária dos EUA estourou e se tornou global (veja nos posts sugeridos), o Ocidente saiu em busca de novos mercados e a China conseguiu se destacar. Virou a fábrica-do-mundo.
Além do campo industrial, a China também se desenvolve para inovar. No campo acadêmico, por exemplo, é muito mais fácil um pesquisador encontrar um artigo feito por pesquisadores chineses em periódicos de referência Capes A1, o que demonstra que pesquisa e desenvolvimento crescem no país. Nos dias atuais, dentre vários exemplos, a IA DeepSeek se destacou no mundo.
Voltando um pouco, nota-se que o crescimento do PIB desacelerou, até porque a China já é muito grande. Em 2007 foram 14,2 % a.a., enquanto em 2018 já estavam em 6,6 % a.a. no acumulado, desde os anos 1980, a economia cresceu e está mais de quarenta e duas vezes maior.
As perspectivas são de o crescimento ser reduzido a um terço dos números atuais. Mesmo assim, já ultrapassaria os Estados Unidos.
O GOVERNO VAI MUDAR?
Não há sinais que indiquem isso. Há marcos de progresso econômico, e outros problemas junto disso e que são típicos do capitalismo, como desigualdade social e contaminação do ar, o que exige medidas de governo. Há repressão a direitos humanos, denunciada por críticos e ativistas.
Depois de Jiang Zemin, em 2002, assumiu Hu Jintao. Em 2012, Hu foi sucedido por Xi Jinping, que concentrou maior poder em suas mãos e restringiu mais liberdades individuais.
Em 2018, aboliu o limite temporal de sua Presidência. Seu poder é grande e isso faz com que, mesmo diante de ameaças ou mesmo os tarifaços de Trump, Xi Jinping coloca a China como antagonista, retribuindo a guerra comercial.
Xi Jinping é o atual presidente chinês. Ele promove uma campanha de promoção pessoal, como se via com Mao Tsé-tung, e com tanto poder quanto. Há denúncias de sistemas de vigilância massiva da população, queixas de trabalhadores por jornadas laborais desmedidas e detenções de membros da minoria muçulmana em campos de detenção na região de Xinjiang.
Em 2019, aos quarenta anos da "Reforma e Abertura", Xi Jinping fez um discurso sobre liderança do Partido Comunista Chinês, no Grande Palácio do Povo. Esse palácio fica num local emblemático: justamente a Praça da Paz Celestial/Tiananmen.
A pandemia do coronavírus teve os primeiros focos conhecidos na China, entre 2019/2020, tanto que o Sars-CoV-2 foi chamado também de Covid19. O fato de a China ser um país mais fechado fez com que o resto do mundo pudesse saber da gravidade do problema quando houve episódios graves na Itália e depois no Brasil e em todo o mundo.
Fora de teorias da conspiração, de um suposto lucro chinês com o ocorrido, a produção industrial chegou a registrar queda de 13,5 % a.a.. Foi a primeira queda desde 1990. Já o varejo atingiu queda de 20 %.
A falta de transparência chinesa se torna um problema aos demais países nessas situações. O país sofre consequências, e assim como crises nos EUA, o mundo acompanha de perto.
E O QUE A CHINA TEM A VER COM OS BRICS?
Outro elemento histórico dos novos tempos está nos Brics. Entenda melhor como funcionam 👇🏻:
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