História
Em 2026 estamos novamente em ano eleitoral. Muitos candidatos curiosos e votos de protesto vão acontecer, e não será a primeira vez. Uma das mais marcantes foi em 1959, há quase sessenta e sete anos: a "eleição" de Cacareco para vereador.
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A PROPÓSITO, QUEM ERA CACARECO?
Cacareco nasceu no Rio de Janeiro, em 1954. Ao contrário de outros candidatos, foi muito precoce, concorrendo ao cargo eletivo com apenas cinco anos de idade.
Calma, os tempos eram outros, mas não é só isso: Cacareco era uma rinoceronte-fêmea. Quando foi inaugurado o Zoológico do São Paulo, em março de 1958, Cacareco fora levada temporariamente para essa nova casa.
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[Falei de vereador, mas por que colocamos um rinoceronte aqui?! Imagem: O Globo | Reprodução] |
O sucesso foi tremendo. Nessa inauguração, foi o animal mais procurado pelas duzentas pessoas que participaram.
DE ONDE SURGIU A CANDIDATURA?
Cacareco ficou alheia a tudo isso e seguiu sua vida de rinoceronte. Enquanto isso, o jornalista Itaboraí Martins, do jornal "O Estado de S.Paulo", “lançou” a candidatura do animal para as eleições que aconteceriam no dia 4 de outubro de 1959. A ideia de lançar essa candidatura curiosa era dar voz à insatisfação popular com os políticos da época.
De acordo com a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), a tática inicial para compartilhar a candidatura consistiu em pichar muros e divulgar Cacareco em programas de debates na televisão. Além da aceitação popular, gráficas se dispuseram a criar e imprimir os santinhos da campanha. Outro recurso que surgiu foi o jingle:
“Cansados de tanto sofrer
E de levar peteleco
Vamos agora responder
Votando no Cacareco".
A ELEIÇÃO
Animais não podem ser candidatos, então a eleição foi algo simbólico. O Tribunal Regional Eleitoral classificou os votos como nulos, sendo estimados cerca de cem mil votos, ou o correspondente a 10 % dos eleitores aptos a votar em São Paulo - um milhão, cento e vinte mil em 1959.
Mas nem todos votaram. Houve abstenção de 16,5 % e 934.794 eleitores. Nessa conta, a votação para Cacareco superou os 10 % naquele pleito. Com isso, a votação foi tão expressiva que, se fosse um candidato humano, teria sido o mais votado entre os quinhentos e quarenta que concorriam às quarenta e cinco vagas.
A votação que Cacareco conseguiu daria para eleger todos os quinze vereadores mais votados, exatamente um terço das vagas. Se somar os votos do partido que recebeu mais, com todos seus quarenta e cinco candidatos, foram pouco mais de noventa e quatro mil.
Seguindo com as curiosidades de votação, veja quantos votos fizeram os mais votados de cada partido:
• Manoel de Figueiredo Ferraz com 10.214, do PSP (genro do então prefeito Adhemar de Barros).
• Valério Giuli com 9.550, do PDC.
• O radialista do programa "Clube do Papai Noel", Homero Silva, com 8.746, da UDN.
• O presidente da Câmara Municipal e ex-prefeito, William Sallem, com 8.512, também do PSP.
• Rio Branco Paranhos com 7.362, do PTB.
• O radialista da "Hora da Virgem Maria", Pedro Geraldo Costa, com 7.178, do PST.
• Januário Mantelli Neto com 6.245, do PRT.
• O médico Scalamandré Júnior com 6.113, do PTN.
• Herotildes Carvalho de Araújo com 5.310, do PR.
• A irmã do deputado Ulysses Guimarães, Ruth Guimarães, com 4.642, do PSD.
• José Molina Junior com 4.042, do PSB.
• Antonio Lamanna Júnior com 3.887, do PRP.
• João Batista da Silva Azevedo com 3.617, do PL.
Pensando nas eleições como são hoje, com urnas eletrônicas e tudo o mais, você pode estar se perguntando como foram possíveis esses votos. Naquela época, ainda era voto de papel e as pessoas escreviam o nome do candidato, tanto que há registro fotográfico do Arquivo Público da Câmara Municipal de São Paulo com algumas cédulas de votos em Cacareco.
Pensando bem, Cacareco poderia até ter sido candidata a um cargo maior. Tamanha a campanha, houve votos para ela até em outras cidades paulistas, como Marília, e também seria eleita em Santos, conforme reportagem da época no jornal O Globo.
COMO FOI A VOLTA DE CACARECO AO RIO? E DEPOIS DA VOLTA?
Cacareco veio apenas de empréstimo, mas o secretário da agricultura do governo do estado de São Paulo, José Bonifácio Coutinho Nogueira, tentou comprá-la do zoológico carioca, esforço malsucedido.
Dois dias antes da eleição, em 1° de outubro – na calada da noite – um caminhão levou Cacareco de volta à "Cidade Maravilhosa". Diz-se que foi precaução para evitar que os populares tentassem empossá-la no Palácio Conde Prates, sede da Câmara Municipal.
Mesmo se fosse empossada, Cacareco não terminaria o mandato. Ela faleceu no zoológico do Rio de Janeiro em dezembro de 1962, aos oito anos de idade. Seu esqueleto, atualmente, está exposto no Museu de Anatomia Veterinária da USP.
A REPERCUSSÃO
Essa "eleição" repercutiu com matérias em rádio, televisão, revistas e jornais, inclusive um longo editorial em importante matutino paulista, que analisou a reação da população de São Paulo quanto à "consagradora vitória" da rinoceronte-fêmea. Rachel de Queiroz, escritora que fez parte da ABL, chegou a escrever uma crônica sobre o assunto, intitulada "O bicho".
O mundo da arte também se apropriou no cinema. "Cacareco vem aí" foi um filme dirigido por Carlos Manga e protagonizado pelo maior ator cômico brasileiro, Oscarito.
O jornalista Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) comentou em sua coluna no jornal "Última Hora" que "diversos membros da cúpula do PSP andaram rondando a jaula de Cacareco para o colocarem no lugar de Adhemar de Barros...". Adhemar era prefeito de São Paulo naquela época.
Jânio Quadros, eleito deputado federal pelo Paraná no ano anterior, era conhecedor das carreiras meteóricas na política e enxergou o potencial de Cacareco. Ele disse que "com o cartaz que está, depois da procura na inauguração do Zoo, Cacareco seria uma forte candidata aos Campos Elíseos", em referência à sede do governo do estado de São Paulo, cargo que ele havia ocupado em mandato anterior. A previsão de Jânio, feita antes daquele pleito, estava quase certa: a rinoceronte não concorreria ao governo, mas a um assento na Câmara.
Já o então presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, como bom mineiro respondeu: "Não sou intérprete de acontecimentos sociais e políticos. Aguardo as interpretações do próprio povo". Mas a repercussão não parou por aqui e nem envolveu apenas nossos destaques políticos nacionais.
A votação de Cacareco repercutiu na Organização das Nações Unidas, onde o chefe da delegação brasileira, o poeta Augusto Frederico Schmidt, teve dificuldade para explicar o fenômeno político ocorrido. Schmidt, que era cronista do jornal O Globo, escreveu na crônica “O rinoceronte” que a “eleição” do animal fora notícia na capa do “The New York Times”, e que o embaixador Ciro de Freitas-Vale lhe telefonara para dizer que era o assunto mais comentado nas rádios de Washington. Não era para menos, pois São Paulo já era a maior cidade brasileira, com mais de três milhões e seiscentos mil habitantes pelo censo de 1960.
OUTROS ANIMAIS "ELEITOS"
Mais protestos similares aconteceriam na História do Brasil. Após a redemocratização do país, em 1988, um voto de protesto contagiou o Rio. Macaco Tião, um chimpanzé do zoológico do Rio que atirava excrementos em autoridades, foi lançado candidato à prefeitura pelo Partido Bananista Brasileiro (PBB), uma brincadeira dos redatores do “Planeta Diário” e da “Casseta Popular” (futuro “Casseta & Planeta”).
Sabendo do histórico da Cacareco e a nova repercussão, quando saiu a "candidatura", Tião foi escondido do público. O então diretor-executivo do Rio Zoo, Paulo Celso Brandão, justificou a decisão:
— Não podemos aceitar isto, somos ligados à Prefeitura. Imagine o zoo promovendo um macaco a nosso próximo chefe!
Esse novo protesto também foi contabilizado como votos nulos, ainda nas cédulas de papel. Oscar Dias Corrêa, que era presidente do TSE, em entrevista ao Globo, falou que votos nulos fragilizavam a democracia, enquanto Marcello Alencar, vencedor do pleito, chegou a acusar o jornal de estimular votos nulos ao noticiar o fato. Um jornal, ou hoje vários sites e portais, expõem fatos ou opiniões, mas muito que acontece parte dos movimentos populares, pois os cariocas tinham frustração com a política.
Um dos idealizadores da candidatura fictícia, Hubert de Carvalho Aranha, do “Planeta Diário”, declarou ao jornal às vésperas da eleição:
— Nós não somos responsáveis pelo voto nulo. A culpa é dos políticos velhos e fisiológicos.
Quando chegou o dia da eleição, o funcionário público Luís Nunes, pouco antes de registrar seu voto, afirmou em tom de brincadeira:
— Eu vou votar no macaco porque, como ele não tem família, não há risco de que possa usar a Prefeitura como cabide de emprego.
Macaco Tião também foi um sucesso, até mais do que Cacareco, com quatrocentos mil votos. Caso fosse candidato real, a votação o deixaria em terceiro lugar entre os doze que disputaram o pleito.
Já no Espírito Santo, em Vila Velha, os eleitores também manifestaram sua insatisfação com o poder público, após um grande aumento no número de focos de Aedes aegypti, o mosquito da dengue. Em 14 de dezembro de 1987, o “candidato” Mosquito teria sido eleito prefeito, com 29.668 eleitores votantes. Seus oponentes foram Magno Pires da Silva (26.633) e Luiz César Maretto Coura (19.609).
E HOJE?
Não é possível fazer esse tipo de voto de protesto, exceto se algum candidato aleatório e que seja humano se candidatar e ter foto na urna eletrônica. Há vários candidatos assim, com nomes e jingles doidões, que lotam o horário eleitoral.
Um dos casos mais recentes foi a eleição do palhaço e humorista Tiririca, que obteve votações expressivas em 2010 e 2014 como deputado federal por São Paulo, ultrapassando um milhão de votos nos dois pleitos. "Pior que tá, num fica".
Além dessas situações, o protesto vem em votos brancos, nulos e abstenções. Claro que isso leva a decisão a quem se manifesta com voto válido, mas expressa insatisfação popular e não sentimento de representatividade.
VÁRIOS PARTIDOS POLÍTICOS
Não apenas na época de Cacareco existiam vários partidos, é uma realidade que se conserva. Você sabe quantos e quais são eles?! Confira 👇🏻:
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👉 Quais partidos políticos existem no Brasil?
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