Clareando o dia e outras canções, por Os Mirins


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Os Mirins, grupo do grandioso Albino Manique, lançou em julho de 2016 seu mais novo trabalho, com canções de encher os olhos, muitas delas sucessos inéditos. Clareando o dia foi a música escolhida para nomear este álbum, mas o alvorecer do dia se faz presente ao longo de todas as músicas, em diferentes ângulos.
Você pode escutar as músicas e acompanhar suas letras logo abaixo e, gostando do CD, adquiri-lo diretamente do site da gravadora Vertical.



[Vídeo: Rei da Música]


VANEIRINHA DA FELICIDADE

Lembrando teu olhar tão lindo
Com a luz do bem-querer
Vejo o céu pra mim sorrindo
Iluminando o meu viver

Meu mundo é mais bonito
Tudo agora têm mais cor
Meu destino foi escrito
Com a paz do teu amor.

Contigo tenho certeza
Que eu não vivo por metade
Se ontem era só tristeza
Hoje é só felicidade!

O ADEUS

Quando um aceno de mão
Indica uma partida
A alma sofre por dentro
Como o abrir de uma ferida

Os olhos marejam por dentro
A dor tangida do adeus
E pede ao céu baixinho
Toda a proteção de Deus

Quando o aceno do adeus
É para um filho que parte
O coração de quem fica
É o que mais se reparte

A dura ausência, pesada,
Que vai pela estrada afora
É o retrato da dor
De quem fica agora e chora

Não existe uma partida
Sem haver voz embargada
Pois se sabe que alvoradas
Não virão do mesmo jeito

E o sentimento arrebenta
Perguntando pra razão
Por que é que a solidão
Veio morar em meu peito?

Quando a distância aumentada
É da sua terra amada
Brota um vazio interior
Dá aquelas duras apertadas

E se o gesto do adeus
É de um amor que se foi
O aceno finge ser um
Mas sempre será por dois

Não tem como ir embora
Sem imaginar a volta
O destino se revolta
Soluçando sua metade

Quem sai marcando caminhos
Sem deixar de olhar pra trás
Sabe que sua própria paz
Virá pra matar saudade!

ACONTECE A UM DOMADOR

Acontece a um domador
Que anda a buscar emprego
O mundo mau lá oferece
Uns potros baios e negros
Mesmo depois de maneados
Corcoveiam sem sossego

Pega na orelha que eu monto
Ao mundo solicitou
A ânsia desse ginete
Nas chilenas se enredou
Nunca encilhar potro alheio
A vida então lhe ensinou

Ginete longe dos bastos
Não vive os seus momentos
Não olha o pelo do xucro
Vindo de encontro aos sentimentos

Gineteando nos agostos
Congela a face ao vento

Aos olhos de povo e manso
Choraram ao ir embora
Nunca mais domo potros alheios
Que andam estrada afora

Se o mundo oferecer outro
Dependuro minhas esporas

Vou dar um tempo-ao-tempo
Vou recompor meus arreios
Talvez emendar o tento
Que penduro meus anseios

Pra nunca mais encilhar
Potros malinos e alheios

TITÃS DA PORFIA

Na legenda da minha mão
Presenciei de certa feita
Duas horas de improviso
Na goela do Gildo Freitas

Igual água de vertente
Brotavam da sua ideia
Versos com rima e poesia
Saudando a sua plateia

Me convenci que a porfia
É uma graça divina
Me encanto ao ouvir esses homens
Brincando através da rima

São relampejos de ideias
Escaramuças campeiras
Poetas que nascem feitos
Sem limites de fronteiras

Gargantas do improviso
Cometas do universo
Velocidade dos raios
Na construção de um verso

Poesia e rimas sonoras
Numa fração de segundos
Trovadores, pajadores
Iluminados do mundo

A nossa pampa se irmana
Com o Uruguai e a Argentina
Nessas pajadas ferrunhas
Sabe o ritual da rima

Talentos descomunais
Da xucra filosofia
Filhos humildes da pátria
Grandes mestres da porfia

 Trovadores, pajadores
Esses titãs do improviso
Poetas por natureza
Confirmam quando preciso

Só houve um Gildo de Freitas
Canto sem medo de erro
Só um Jayme Caetano Braun
E um único Martín Fierro

RETRATANDO A VANEIRA

Quando a gaita chora na vaneira
E a polvadeira se levanta
O Rio Grande baila no sonido
Pelo chão batido das bailantas

Ecoando o ronco pela sala
Para transformá-la em canção
Nesses entreveiros da querência
Rebrotando a essência desse chão

Vamos se atracando nessa marca
Que o tranco retrata a tradição
Quando a gauchada firma o passo
Nesses fandangaços de galpão
Quando a gauchada firma o passo
O Rio Grande baila a tradição

Serve pra bailar de pé trocado
Ou improvisar num sapateio
Fica mais graciosa, mais hermosa
Na sala a moça, um sarandeio

Mas uma vaneira é mais vaneira
Quando a sala cheira a picumã
Integrando os tauras galponeiros
Aos novos campeiros do amanhã

RANCHEIRA VELHA

Já tô cansado de dançar vaneira
Gaiteiro amigo te faço um pedido
Que mude o tranco pra velha rancheira
Daquelas buenas do sistema antigo

Não há compasso pra ajeitar namoro
Pouco me importa, quero é diversão
E vou bufando igual brigão de touro
Buscando espaço por todo o salão

Vamo que vamo no embalo do trem
Pra mim não tem melhor academia
Do que dançar de saltar carteira
Uma rancheira de clarear o dia

Pra pegar fogo eu danço valseado
E mal encosto a sola no chão
Fosse pra lida, pra abrir um roçado
Juro não tinha essa disposição

Depois eu volto pro sapateadito
Bota lageana com seu barbicacho
Nossa senhora, mas como é bonito
Fazer barulho com os dois pés de baixo

PRA TE ENCONTRAR

Novamente estou cantando pra você
Pra te dizer o quanto tenho sofrido
Já fiz de tudo pra chamar sua atenção
Infelizmente, nunca fui correspondido

Uma canção foi-me uma tentativa
Alternativa que eu achei pra te encontrar
Sinceramente, minha vida não tem graça
O tempo passa e eu não canso de te amar

Nessa canção, eu quero dizer sem medo
Que esse segredo que há muito tempo escondi
Faltou coragem pra falar pessoalmente
O que eu sentia as canções falaram pra ti

Muitas vezes fiquei no anonimato
Esse é um relato de um peito que já sofreu
Eu não preciso sequer citar o teu nome
Me telefone, diga que não me esqueceu

A tua carta, até agora não chegou
Pra me dizer se tu ouviu minha canção
Este silêncio é o que tem me judiado
Descompassando o meu pobre coração

A cada dia que passa, minha querida
Dou a minha vida um pouco mais de esperança
Fico apenas alimentando a ilusão
Um coração, para amar, não tem distância

ROSA TRIGUEIRA

Eu chorei um prato amargo no jardim dos desencantos
Por perder Rosa Trigueira, a mais bela flor dos campos
Foram tristes primaveras, rebeldia de quem ama
Embaçando meu olhar toda a paixão que reclama

São queixumes e saudades
Com agrura e solidão
Por perder Rosa Trigueira
Minha flor do coração

Era ela a mais bela das trigueiras do rincão
Seu desprezo fez coivara dos meus sonhos de peão
Hoje ouço em auroras, beija-flores e pardais
Em seu canto a me dizer: Trigueira não volta mais

Tantas noites mal dormidas e tantos sonhos perdidos
Ao perder Rosa Trigueira, meu mundo foi destruído
Hoje ouço em auroras, beija-flores e pardais
Em seu canto a me dizer: Trigueira não volta mais

CLAREANDO O DIA

Ouço a gaita me chamar
Pra erguer poeira do chão
Eu ainda tô sem par
Pra rodar pelo salão

Esperei, mas não chegou
Quem eu tanto quero bem... sei que não vem

Eu tô loco pra dançar
Foi pra isso só que eu vim
Eu não vou mais esperar
Porque o baile está no fim
Daqui a pouco o dia vem
Ela não apareceu... já me perdeu

E lá se vem clareando o dia
A gaita não pode calar
Quem vem para sorrir
Vai pra lá e vem pra cá
Eu não vou desistir
Quero dançar

O Sol aponta atrás do cerro
Entra nas frestas do galpão
Deixa o dia clarear
Pra apagar o lampião
Eu daqui sem dançar
Não saio não

GAITEIROS GAÚCHOS

Da minha cordeona, que aos poucos se fecha
Ganhei essa mecha de branco nas crinas
E antes que a gaita se vá para o estojo
Eu subo o apojo de um som que termina

Comparo o meu corpo com a gaita cansada
Por léguas de estrada, noitadas sem fim
Pois trago nas veias gaitaços malevas
E a gaita carrega pedaços de mim

Sou resto de baile com sol da janela
Sou tecla amarela, encardida do tempo
Gaiteiro gaúcho, mourão de invernada
É casca lanhada, mas firme por dentro

Na beira do fogo forjei amizade
Sem ter vaidades, pachola e contente
Pra mim dá no mesmo tocar sem ter lucro
Ou num baile xucro tapado de gente

Mas coisas tão minhas ganhei nos rodeios
Farranchos, floreios, cirandas da vida
Levando alegria tirei meu sustento
Bendito instrumento, parceiro de lida

Levei no meu canto, de pura linhagem
Ferrunhas mensagens de guerra e de amor
Abrindo esse fole, mesmo na mesmice
É como se abrisse no campo uma flor

Eu sei que a saudade jamais envelhece
Por isso, nas preces, eu peço uma luz
Pra que eu não esqueça dos tempos tão lindos
Cordeona se abrindo e os braços em cruz

VIVÊNCIA TAPERA

Quando desato a lembrança
Meu pensamento desanda
Abancado na varanda
Sorvendo a minha saudade

Me pego fazendo planos
Até que o dia me alcança
A campear uma esperança
Nessa vida por metade

A quietude logo finda
Pois já chega o sol rondando
E a noite se espreguiçando
Que ressona junto às brasas

O canto madrugador
Do galo chamando o dia
Me lembra que alegria
Há tempo bateu as asas

Vem cevar meu chimarrão
E aquecer minha vida
Que sem graça e diminuída,
Desde que fiquei sozinho

Vem trazer o teu sorriso
Pra iluminar o meu pago
E adoçar esse amargo
Da falta do teu carinho

O peito vazio da ausência
Abriga um frio de geada
Os olhos presos na estrada
No vício de uma espera

A solidão que me abraça
Testemunhando esse fato
É moldura pra um retrato
Dessa vivência tapera

A saudade que machuca
Já não é mais estranha
Fielmente me acompanha
Não me deixa e nem me esquece

Pouco me importa o clarão
Que o novo dia ameaça
Pois a noite sempre passa
E a saudade permanece

SEM BRONCA

A noite se finda, me acordo escutando
O vento guasqueando nas tábuas do rancho
O dia me encontra de zoio pequeno
E num mate bueno a preguiça eu desmancho

Com sol ou geada, com chuva ou garoa
Qualquer tempo à toa que vem lá de cima
Quando o galo canta, eu pulo da cama
Se a lida me chama, não importa o clima

A vida não para porque o tempo muda
E o céu ajuda quem firme se aguenta
Quem não é patrão trabalha sem bronca
Pois lá a pança ronca com sol ou tormenta

Que venha o destino que a vida me deu
Porque não nasceu quem viva de brisa
O peão só desenha um tempo melhor
Deixando suor no chão onde pisa

No mundo campeiro, um dia após outro,
A sina do potro é ser cabestreado
 O peão também nasce com a mesma sina
Pra nessa rotina viver embretado

Quem sabe da lida conhece o caminho
Não baixa o focinho se o tempo tá feio
Pros tombos da vida não frouxa um tento
De choro e lamento refuga o arreio

FRACO PRA BEBIDA

Neste surungo já cheguei meio borracho
Carregando o barbicacho pendurado nas oreias
O lenço atado num nó cego a meia espalda
Um trotão cheio de baba e a carranca bem vermelha

Bem que eu podia ficar no rancho solito
Mastigando um fiambrezito de salame com bolacha
Mas, invés disso, tô tropicando na baba
Fui beber uma canha braba que me travou as ganacha

Coisa bem feia é um gaúcho fraquejando
E acaba se emborrachando por causa de uma bandida
Eu sei que china não se esquece assim bebendo
E além de tudo eu tô vendo que sou fraco pra bebida

Mas que maleza, pareço um bicho pesteado
Tô vendo o baile emborcado, tudo de pata pra cima
Vou me batendo, sol lá fora testaveando
E já estou desaforando até mesmo quem me estima

Tem um milico metido a facão sem cabo
Fazendo cara de brabo
Louco pra me riscar o lombo

Mas se acaso ele inventar de fazer graça
Daqui a pouco corre e passa
E ele é quem vai levar o tombo



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