Construções Recalcadas? (II)

watch_later 10 de dezembro de 2013
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No post anterior desta série, vimos os principais tipos de recalques: distorcional, por subsidência, por vibração, primário, secundário, por colapso, imediato e por dissecação. Agora, veremos os principais tipos de causas de recalques, como identificar e avaliar, e os procedimentos de monitoramento.

Os principais problemas que levam à ocorrência de recalques são erros de projeto e execução (por falha de projeto ou execução não compatível com o projeto); adensamento ou ruptura do solo; deformação lenta do concreto; erros na locação de pilares e estacas e outros problemas em fundações; falhas de concretagem; sobrecarga ou uso modificado (o que foi projetado para ser uma casa torna-se uma academia, por exemplo); construções vizinhas sendo erigidas ou concluídas após a obra da edificação em questão; rebaixamento de lençol freático. Distribuindo estatisticamente as causas, a maioria fica no projeto, materiais utilizados e na execução (45%, 16% e 37%, respectivamente). O mau uso das edificações promove apenas dois per cento dos casos de recalques.

Nas edificações em geral, deveriam ser feitos furos de sondagem para um real conhecimento das camadas componentes do solo e um projeto adequado das fundações, o que nem sempre ocorre. Isso faz com que ocorram muitos problemas com fundações. Sob cada edificação, cria-se um bulbo de pressão no solo que pode ser suportado pelas camadas superficiais, mas pode gerar o adensamento em uma camada mais baixa, o que leva a recalques. Se isto não ocorrer, o problema pode surgir com a construção de uma edificação vizinha, pois estes bulbos são cumulativos. Por isso é que a visão de projeto não deve se delimitar aos muros do terreno, pois os efeitos são mais extensos.

Para distribuir estas tensões, são construídas sapatas (com uma área maior, as cargas possuem maior distribuição sobre o solo) e, em uma proporção maior, os radieres, que são ‘sapatas gigantes’, que abrangem toda a edificação, buscando, em caso de recalque, que este seja uniforme.

Para a avaliação dos recalques, inicialmente, são feitas investigações prévias para que se descubram os motivos dos recalques, com vistorias (em que há uso dos sentidos para a detecção) e anamnese (busca de informações como: idade da edificação, anomalias durante a construção (mês e ano), comportamento de rachaduras (idade, evolução de tamanho – sazonal ou contínua), mudanças de uso ou projeto, etc.), conhecimento sobre vazamentos em tubulações, fossas, sumidouros, caixas de gordura e/ou inspeção, períodos de seca ou enchentes (e outras condições meteorológicas), vibrações por abalos sísmicos ou menores por ação de equipamentos, existência de minas subterrâneas, etc. Ou seja, são analisadas todas as principais fontes do problema (recalque), em busca da real causa (ou conjunto de causas).

Além disso, também há um trabalho específico de análise do projeto e da execução, em que se analisam: memorial descritivo, projeto arquitetônico, projeto hidráulico, projeto sanitário, etc. Se foram feitos os furos de sondagem já mencionados, estuda-se quais os resultados do laudo gerado pela sondagem, assim como os diários de obras, relatórios de execução, etc. A busca bibliográfica de problemas de recalque com ‘sintomas’ semelhantes também faz parte desta análise, bem como alguns ensaios laboratoriais.

Após toda esta etapa de coleta de dados, chega-se a um resultado para causas e início dos recalques. A partir deste ponto, é preciso avaliar a urgência do problema, decidindo se é possível fazer monitoramento topográfico ou tomar medidas de urgência, com projeto de reforço. Também é preciso avaliar a relação custo-benefício entre estas duas opções.

As medições de recalques de fundações são realizadas com equipamentos com precisão de décimos de milímetro. Utilizam-se diversos equipamentos, usando técnicas da Topografia Altimétrica, com o uso de níveis e réguas, além de pinos e parafusos.

Os níveis utilizados são: nível de Terzaghi, nível eletrônico e nível ótico, sendo este último o melhor, pois a espessura do laser dos níveis eletrônicos já gera erro. Para qualquer medição de nível, é necessário uma referência de nível, que é colocada em alguma edificação vizinha à que se monitorará os recalques, que tenha pelo menos cinco anos, e comprovadamente esteja estável. Esta referência usa bench-marks, que são engastadas em camadas profundas com injeção de nata de cimento ou cravação de estacas, de modo a garantir a estabilidade da referência, que usa pinos de aço ou parafusos para materializar esta referência. Também podem ser usados corpos de prova já usados em ensaios de resistência (levados ao limite da compressão).

Nesta referência de nível, também são fixadas réguas especiais - Mira Ínvar (de invariável), feitas com liga de aço e níquel com baixo nível de dilatação. Após esta fixação, são usados pontos na estrutura, (escolhidos em posição e número dentro da relação custo-benefício) que são materializados por meio de pinos ou parafusos, os quais serão monitorados. Para a fixação de pinos, são usadas pistolas especiais, mas estes pinos não são boa alternativa, por terem, às vezes, um comprimento considerável, não serem fixados com a horizontalidade adequada, etc. Ao invés de pinos, são usados parafusos, fixados por meio de parafusadeira elétrica, em que há maior controle da horizontalidade, onde a bucha utilizada, de forma a mantê-los bem firmes, é de bitola imediatamente menor.

Nos pinos se pode usar réguas fixas (Ínvares), o que facilitaria o trabalho, sendo mantidas verticais por ação da gravidade. Entretanto, a dilatação e o custo das réguas fazem com que esta técnica não seja utilizada, e seja necessário um auxiliar para segurar a régua e mantê-la vertical com nível de bolha e balizas, durante as medições.

O controle de verticalidade ou desaprumo é um acompanhamento feito, a partir de então, para a determinação do deslocamento vertical de uma edificação, em frequência que varia de horas ou minutos a dias e meses, de acordo com a evolução dos recalques. Também é feito (às vezes), um controle de flambagem, usando fio de prumo (como o usado em obras) ou por meio de equipamentos topográficos, que é a solução mais usual.

Os recalques são monitorados por meio de leituras de nível, sempre usando a mesma referência de nível. As leituras precisam ser feitas sempre em um mesmo horário (de preferência, de manhã cedo), em mesmas condições meteorológicas (é preciso observar regime de chuvas, ventos, temperatura semelhante nas leituras e, se está ensolarado ou nublado) e por um mesmo operador (pois as leituras variam de operador para operador, pela diferença de acuidade visual). Baseando-se nestas medições, são feitas as cadernetas de recalques, em que são calculados os recalques parciais, os recalques totais e a velocidade de recalque.

Recalques parciais: diferenças entre a leitura feita em um dia menos a leitura do dia de medição imediatamente anterior. Recalque total: leitura de nível da última medição menos a leitura inicial (usada como leitura de referência). A velocidade de recalque é um terceiro conceito, sendo a razão entre o deslocamento total (recalque total) e o tempo em dias de intervalo entre medições. A unidade é [μm/dia].

Os pilares em que está ocorrendo o recalque podem ser indicados por rachaduras a 45º: basta traçar uma perpendicular na direção oposta para ter a localização. Faz-se as medidas de espessura da rachadura por meio de aparelhos chamados fissurômetros. Em um acompanhamento mais longo, são marcados com sinais os pontos de fim das rachaduras, com suas respectivas datas. Por meio de software gráfico, são ilustradas as rachaduras e referenciadas nas paredes, onde se plota a evolução das trincas ao longo do tempo. Não se recomenda o uso de gesso para corrigi-las: pode haver um efeito estético rápido, mas é inútil, pois as trincas se reabrem e segue o problema.

Para que os recalques sejam um problema menor, é muito melhor agir de forma preventiva, consultando um profissional de Engenharia Civil para orientar os trabalhos, que sempre deverá estar atualizado nesta temática. Um Engenheiro Civil cursa a disciplina de Patologia das Construções, que trata dos problemas patológicos que surgem em edificações, como os recalques, e formas de construir já pensando nos efeitos futuros, de forma a mitigá-los. A falta de acompanhamento de um Engenheiro em obras pequenas é uma das causas notáveis para recalques, onde geralmente há falta de algum dos projetos. Também é comum ocorrer a falta de conhecimento das obras vizinhas e do subsolo (o que gera recalques primário e por dissecação), desacordo com as normas técnicas vigentes e falta de comunicação entre os profissionais de projeto e execução (que nem sempre são os mesmos).
 


 

 

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