Falso Brilhante

watch_later 9 de dezembro de 2013
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Crônica


Leia a crônica de Fabrício Carpinejar, publicada em 4 de outubro de 2011 no Jornal Zero Hora, que versa sobre a intrigante questão (não, não é o que você está pensando, sobre ser ou não ser, de Shakespeare): Afinal, o que é o amor? Será que ele realmente é exibicionista?






“Há o condicionamento de que amor mesmo, de verdade, é gastar metade do salário para a esquadrilha da fumaça assinar o nome da namorada pelos céus de Porto Alegre.
Temos uma noção de que amor mesmo, de verdade, é exibicionista. Depende de surpresas públicas de afeto como serenata na janela, carro de som, anúncios na TV, outdoors com pedidos de casamento.
Mulheres e homens se desesperam por um amor público, encantado, de estádio cheio, e cobram provas mirabolantes de seus parceiros. Reclamam da rotina, da previsibilidade, e exigem declarações barulhentas para despertar a inveja do próximo.
O amor espalhafatoso recebe a fama, mas o amor contido é mais profundo.
Ao procurar o amor empresarial, desprezamos o amor funcionário público, que atende às ligações e escreve nossos memorandos.
Ao perseguir o amor de cinema, desdenhamos o amor de teatro, de quem encena a peça todo dia do nosso lado, sempre com uma interpretação nova a partir das falas iguais.
Ao cobiçar o amor sensual de lareira e restaurante, apagamos a delícia de comer direto nas panelas, sem pratos, sem medo do garçom.
Ao perseguir a aventura, negamos a permanência.
Preocupados em ser reconhecidos mais do que amar, esquecemos a verdade pessoal e despojada de nosso relacionamento. Recusamos o amor constante, o amor cúmplice.
Não valorizamos a passionalidade silenciosa, a passionalidade humilde, a passionalidade generosa, a passionalidade tímida, a passionalidade artisanal.
O passional pode ser discreto na aparência e prático na ternura. O amor mais contundente é o que não precisa ser visto pera existir. E continuará sendo feito apesar de não ser reparado.
O amor real é secreto. É conservar um pouco de amor platônico dentro do amor correspondido. É reservar as gavetas do armário mais acessíveis para as roupas dela, é deixar que sua mulher tome a última fatia de pizza que você mais gosta, é separar as roupas de noite para não acordá-la de manhã. E nunca falar que isso aconteceu. E não jogar na cara qualquer ação. E não se vangloriar das próprias delicadezas.
Buscá-la no trabalho é o equivalente a oferecer um par de brilhantes. Esperar com comida pronta é o equivalente a acolhê-la com um buquê de rosas vermelhas.
São demonstrações sutis, que não dá para contar para os outros, mas que contam muito na hora de acordar para enfrentar a vida.”




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