Internet: meu bem, meu mal.

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O crescente desinteresse pelo ensino tradicional é um fenômeno que ocorre no mundo todo. O ambiente hermético “da oralidade e do impresso”, antes prevalecente nas salas de aula, hoje é compartilhado pelas novas tecnologias educacionais. Entre elas, talvez a maior mudança de paradigma tenha sido causada pela Internet, que representa uma ruptura com os consagrados modelos pedagógicos. Provavelmente não seja exagero dizer que cabe a divisão a.w. (antes da web) e d.w. (depois da web). Isso porque em nenhum momento da história se ofereceu acesso ao conhecimento de maneira tão ampla e democrática.
Embora longínqua no tempo, cabe parcialmente uma analogia. No período do séc. III a.C. ao séc. IV d.C., a Biblioteca de Alexandria, cujo acervo era de 700 mil papiros, tinha a louvável presunção de reunir todo o saber da Antiguidade. Seu lema era “adquirir um exemplar de cada manuscrito existente na face da Terra”. No entanto, seu manuseio era restrito: apenas os mais conspícuos sábios tinham condições de acesso.
A web torna disponíveis conteúdos técnicos e pedagógicos precisos, com visual atraente e em movimento. Em contrapartida, metade de seus bytes é descartável, é entulho, é lixo ou fútil às nossas crianças ou jovens. Um belo exemplo do uso da rede vem do casal Bill e Melinda Gates: para a filha mais velha, de dez anos, os dois estabeleceram o limite de 45 minutos por dia. Sábados, domingos e feriados um pouco mais: uma hora. Ao proferir uma palestra no Canadá, Bill Gates conta que a filha protestou:

– Mas pai, vou ter este limite por toda a minha vida?
– Não, quando sair de casa, você poderá definir seu próprio tempo de uso do computador – responde Bill Gates, arrancando risos do auditório.

Não há como negar que a Internet é um poderoso agente de transformação do nosso modus vivendi et operandi. Somente no Brasil, somos 44,2 milhões de usuários, (dados do eMarketer, fev./09) e o nosso país é líder mundial em tempo de navegação.
Esse número equivale a 48 minutos diários. Seria aceitável, se não fosse o fato concreto que a maioria dos jovens passa de duas a quatro horas diante do computador, sacrificando a sociabilização, a cooperação doméstica, a compleição física e, sobretudo, os estudos e as boas leituras. “Meus filhos terão computadores sim, mas antes terão livros” – já há algum tempo apregoava o próprio Bill Gates.
Com a Internet, pouco se cria e muito se copia! Boa parte dos trabalhos escolares são determinados pelo “ctrl + c” e “ctrl + v”.
O professor atualizado muitas vezes fareja a cópia. Que tal fazer uma arguição oral ou uma resenha manuscrita do conteúdo apresentado? Mas não vamos dramatizar, pois quantos de nós – quando estudantes – copiávamos os trabalhos escolares dos livros, enciclopédias, revistas? Ou do colega que já havia passado pela disciplina?
Por isso, cabe ao educador incluir no seu trabalho pedagógico algumas tarefas: primeira – orientar que a cópia é uma atitude que desrespeita valores e direitos autorais; segunda – sugerir ao aluno bons sites sem se esquecer de sugerir bons livros; terceira – sempre incentivá-lo para que desenvolva o senso crítico.
Quanto à força e abrangência da Internet, vale um depoimento pessoal. Em 2001, no site www.geometriaanalitica.com.br, hospedei 498 páginas para estudantes de Engenharia e Matemática: cônicas, quádricas, superfícies, vetores, planos, retas etc. Tive imensa surpresa: um contador internacional registrou centenas e centenas de acessos diários, oriundos de 58 países. “Navegar é preciso”, mas também é preciso ter discernimento do moderno canto da sereia: o fascinante – e falacioso – mundo do www.
Em tempo: A frase “Navegar é preciso, viver não é preciso” tem como autor Fernando Pessoa ou Luís Vaz de Camões? Veja a resposta no Google em 0,29 segundos. □ 

VENTURI, Jacir J. 

(O autor já atuou em diferentes funções no setor educacional, como professor e diretor. In: Geometria Analítica – Site do Professor Jacir Venturi) 

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