Morte e Vida Severina (VIII)


cliptomania 

ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO 

— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.

— é de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio. 

— Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida. 

— é uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo. 

— é uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo. 

— é uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca. 

— Viverás, e para sempre
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça. 

— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas. 

— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia. 

— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator. 

— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita. 

— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste. 

— Será de terra
tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida. 

— Será de terra
e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça. 

— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato. 

— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu. 

— Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda. 

— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida. 

— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido). 

— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo) 

— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido). 

— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos). 

— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos) 

— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido). 

— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido. 

— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva. 

— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana. 

— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão. 

— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta. 

— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão. 

— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada. 

— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo. 

— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela. 

— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca. 

— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado. 

— Na mão direita somente
o rosário, seca semente. 

— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha, 

— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto. 

— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão. 

— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito à viração. 

— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa. 

— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida. 

— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta. 

— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com que se dorme. 

Veja também: (Cultura) As piriguetes vieram para ficar.

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